
A relação entre pessoas autistas e roupas vai muito além do gosto pessoal. Para quem vive no espectro autista, escolher uma roupa pode ser uma experiência complexa envolvendo sensibilidades táteis, necessidades de conforto e barreiras sociais que muitas vezes passam despercebidas.
A Experiência Sensorial no Vestuário
A hipersensibilidade tátil é uma característica comum no Transtorno do Espectro Autista (TEA). Estímulos que parecem inofensivos para neurotípicos podem ser processados como ameaças pelo sistema nervoso de uma pessoa autista.
Elementos que causam desconforto:
- Etiquetas e costuras: Podem parecer lixa ou arame farpado em contato constante com a pele.
- Tecidos ásperos: Lã, poliéster e materiais sintéticos causam coceira ou sensação de arranhão.
- Roupas justas: A pressão pode ser sentida como restritiva e sufocante.
- Roupas novas: A rigidez antes da lavagem pode ser intolerável.
Tecidos preferidos:
- Cetim e algodão (mais macios e flexíveis)
- Algodão orgânico, bambu e modal
- Materiais que regulam bem a temperatura
Impacto da sensibilidade na vida cotidiana
A sensibilidade a roupas cria obstáculos reais. Uma pesquisa do Reino Unido com 86 adultos autistas revelou que 1 em 3 deixou de candidatar-se a empregos devido a políticas obrigatórias de uniforme. Além disso, muitos relatam dificuldade em participar de eventos formais quando não encontram roupas confortáveis adequadas.
Há também uma frustração estética: muitos se sentem “presos” em roupas seguras, limitando a expressão pessoal. Como relatou um participante: “Não há nada fashion que atenda às minhas necessidades — sinto que me visto como um velho”.
Estratégias para um guarda-Roupa funcional
Pessoas autistas costumam desenvolver as seguintes estratégias práticas para lidar com esses desafios:
- Comprar múltiplas peças idênticas quando se encontra algo confortável;
- Inspecionar tecidos em lojas antes da compra;
- Lavar roupas novas antes do primeiro uso para amaciar;
- Manter um registro das preferências para identificar padrões.
Uma Experiência Individual
É fundamental entender que não existe uma “roupa universal para autistas”. A experiência sensorial é altamente individual: alguns preferem roupas soltas porque peças justas parecem “sufocantes”, enquanto outros preferem compressão porque roupas largas “se mexem demais” e causam coceira.
Eu, por exemplo, prefiro roupas mais soltas no corpo. Apesar de usar roupas justas esporadicamente, o tecido precisa ser macio e ter uma pequena folga, não pode ser extremamente justo.
Minhas experiências
Passei por situações complicadas com o uso de algumas peças. Por exemplo, durante o casamento de um amigo, precisei ir ao banheiro diversas vezes (em torno de umas 15) para simplesmente tirar o vestido um pouco e conseguir me sentir em paz.
O tecido era horrível e o vestido me foi emprestado. À época eu não tinha diagnóstico de transtorno do espectro autista, mas não faltavam adjetivos variados para me qualificar. De fresca à seca, eu ouvia muitas bobagens.
Essa não foi a única experiência negativa que tive com roupas. Mas com certeza foi a mais marcante.
Há dois anos, desfiz-me de um calça linda que comprei on-line porque ao caminhar, ela fazia um barulho insuportável, deixando-me muito irritada. Eu só queria arrancá-la, mas eu estava fora de casa. Quando criança, eu tirava a roupa mesmo. Parece exagero, não é? Pode soar engraçado, mas é bem incômodo e tira o autista do eixo.
Cada autista terá sua própria experiência e muitas delas podem causar constrangimentos, perda de oportunidade de emprego (o caso do rapaz do Reino Unido mencionado no início desse post), julgamentos sobre o estilo, que muitas vezes é limitado, não pela vontade de usar peça A ou B, mas pela sensação que certos tecidos causam. E isso não apenas no corpo.
Só autistas sentem isso? Não. Há pessoas com sensibilidade tátil a diversas texturas. Não podemos restringir tudo ao autismo. Por isso, é comum que ao mencionarmos certas dificuldades com roupas sempre se levante alguém dizendo: “eu também tenho isso”. Não quer dizer que a pessoa está no espectro.
Aliás, falando em autismo, eu fui diagnosticada ainda com a antiga nomenclatura: Síndrome de Asperger. Tirando a herança nada agradável desse nome, prefiro a classificação antiga. Mas isso é assunto para outro post.




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