
Hoje se confunde, com frequência digamos preocupante, traços de personalidade, preferências individuais e dificuldades pontuais com o Transtorno do Espectro Autista (TEA).
Muitas vezes, lê-se ao que pertence ao campo do temperamento, do estilo pessoal ou de desafios específicos da vida cotidiana passa, como diagnóstico clínico.
Nos últimos anos, o autismo passou a ocupar mais espaço no debate público. Isso trouxe avanços relevantes: mais informação, mais diagnósticos em pessoas antes invisibilizadas, mais compreensão sobre apresentações diversas, especialmente em mulheres e adultos.
Porém, junto com esse progresso, surgiu também um efeito colateral preocupante: a banalização do diagnóstico.
Ser uma pessoa reservada ou não gostar de barulho não significa ser autista. Sentir-se diferente, preferir rotina, ser introspectivo, ter poucos amigos, ser sensível ou ter dificuldades sociais em determinados contextos também não bastam, isoladamente, para caracterizar TEA. É necessário haver prejuízos significativos.
Padrões diagnósticos
O DSM-5 Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-5) estabelece que o autismo envolve padrões persistentes, presentes desde o desenvolvimento inicial, de:
- Déficits na comunicação social e na reciprocidade social
- Padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou processamento sensorial
- Prejuízo clinicamente significativo no funcionamento social, acadêmico, ocupacional ou afetivo
- Sintomas que não tenham uma melhor explicação por outra condição.
Em outras palavras: não se trata apenas de “ser diferente”. Trata-se de diferenças estruturais no modo de perceber, interpretar e responder ao mundo, acompanhadas de impactos concretos ao longo da vida.
É justamente aqui que o debate costuma se perder. Muitas pessoas identificam em si um traço isolado e concluem rapidamente que são autistas. Mas um diagnóstico sério exige análise da história do desenvolvimento, persistência dos sinais e prejuízos reais.
Um criança precoce e uma adulta atrasada
Eu, por exemplo, fui uma criança com fala precoce. Isso poderia levar muitos a imaginar um desenvolvimento totalmente típico.
No entanto, ao mesmo tempo, eu tinha extrema dificuldade de socialização. Saber falar cedo não eliminou barreiras sociais. Esse é um ponto importante: o autismo nem sempre aparece como atraso evidente; às vezes aparece como desencontro entre habilidades.
Eu também costumava imitar comportamentos de outras crianças sem compreender o contexto em que eles aconteciam.
Por exemplo, recordo-me de visitar a casa de uma colega e ouvi-la chamar o primo por uma expressão ofensiva. Interpretei aquilo literalmente como a forma pela qual o chamavam e repeti o termo.
Mas sofri as reprimendas de forma bem severa. Quando me questionaram, respondi com sinceridade que pensei ser aquele o modo normal de tratá-lo. Só depois me explicaram: “Ela pode, é da família; você não”. Eu tinha 12 anos.
Esse tipo de episódio revela algo central no espectro: dificuldade em perceber regras sociais implícitas. Muitas normas humanas não são diretamente ensinadas; espera-se que sejam intuídas. Para algumas pessoas, isso simplesmente não acontece de forma espontânea.
Minha mãe costumava dizer (e ainda diz) que eu levo tudo ao pé da letra. E essa frase popular descreve bem uma característica frequente no autismo: a literalidade.
Ironias, ambiguidades, indiretas e subtextos podem exigir esforço consciente quando, para outros, surgem naturalmente. Não é que não compreendamos, mas é automático como para a maioria. Algumas, vezes, não entendemos mesmo, porque são novidades. Mas uma vez aprendidas as expressões, estas ficam gravadas na memória.
Mesmo que, num primeiro momento, o cérebro tente interpretar tudo literalmente, pausamos um pouco e conseguimos quebrar a barreira da literalidade para a compreensão das metáforas.
A questão sensorial vai além do incômodo
Outro ponto banalizado hoje é a questão sensorial. Há quem diga “barulho me incomoda” como se isso bastasse para explicar certas experiências. Mas existe diferença entre incômodo e sofrimento neurológico.
Vou dar o meu exemplo. Sempre sofri com barulhos extremos ou específicos. Alguns sons chegam a me causar enjoo, dor de barriga e, em certos contextos, dor de cabeça. Não se trata de uma simples preferência e sim de uma reação física e psíquica intensa.
Lembro-me de uma vez em que estava em um terminal de ônibus lotado. O ruído, a multidão e a impossibilidade de sair dali me deixaram em extremo desconforto.
Em determinado momento, comecei a ver as pessoas como se estivesse fora daquela realidade. Eu as via se mover, mas não as escutava.
Perguntava-me internamente se eu realmente estava ali. Então, de repente, o som do ambiente retornou com força e tomei um susto. Experiências assim mostram o que a sobrecarga pode produzir.
A seletividade alimentar
Também tive seletividade alimentar importante. Até os nove anos, macarrão era praticamente a minha única comida.
Isso ultrapassa a ideia simplista de “criança enjoada”. Em muitos casos, envolve textura, previsibilidade, sensorialidade e rigidez diante de mudanças.
Até hoje minha mãe me chama de italianinha.
Meu marido também se assustou porque nos primeiros três anos de nosso casamento ele praticamente teve que me acompanhar comendo muito macarrão.
Relacionamentos e trabalho
Tive muita dificuldade com relacionamentos amorosos. Muitas vezes não percebia quando um rapaz estava interessado. Alguns interpretavam isso como esnobismo, quando na verdade havia dificuldade de leitura social.
Também enfrentei (e enfrento) obstáculos no trabalho. Meu primeiro emprego foi no serviço público, aos 29 anos, onde permaneço até hoje. Eu até tentei trabalhar como CLT, mas nunca passei em nenhum processo seletivo.
Disseram-me mais de uma vez que eu tinha “cara séria demais” e não interagia nas dinâmicas. Das vezes que não recebi feedback, eu sabia o porquê. Era meu comportamento.
Eu me perguntava: “Como fulano, que não sabe de nada passou e eu que sei tudo não fiquei”?
Muitas pessoas autistas conseguem estudar, conversar, trabalhar e aparentar funcionalidade. O custo disso, porém, é altíssimo.
A camuflagem social
Em mulheres, isso foi historicamente negligenciado. Muitas aprenderam a observar, copiar, mascarar e compensar dificuldades. Hoje, estuda-se esse fenômeno como camuflagem social (masking).
A aparência de ajuste nem sempre corresponde ao esforço interno. Por isso é problemático quando qualquer traço de personalidade vira autismo nas redes sociais.
Primeiro, descredibiliza quem vive prejuízos reais. Segundo, apaga a complexidade clínica do diagnóstico. Terceiro, confunde experiências humanas comuns com uma condição do neurodesenvolvimento.
Há pessoas tímidas, introspectivas, sensíveis ou diferentes. Todas merecem respeito. Mas isso não equivale automaticamente a estar no espectro autista.
Dizer que jeito de ser não é autismo não é excluir ninguém. É preservar a seriedade de um diagnóstico que, para muitos, ajuda a compreender décadas de sofrimento oculto, mal-entendidos e esforço invisível.
Não podemos banalizar o diagnóstico
Não podemos banalizar o diagnóstico do autismo colocando no espectro traços de personalidade que não acarretam prejuízos reais no dia a dia de quem os possui.
Avaliações sérias demoram, requerem múltiplos profissionais envolvidos, como neuropsicólogos, neurologistas, psiquiatras e isso com profunda investigação a partir dos relatos não apenas do paciente, mas de seus familiares.
O autismo não é uma metáfora para estranheza, uma identidade estética para exibir em redes sociais ou um rótulo casual.
O autismo é uma condição real, complexa e frequentemente invisível, marcada por sinais persistentes desde cedo e por impactos acumulados ao longo da vida. Tratar isso com rigor é uma forma de respeito a todos os autistas que sofrem diariamente as consequências do transtorno.




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