

A aversão a multidões, barulhos excessivos e estímulos sensoriais intensos são características comuns no espectro autista, e suas causas estão ligadas a diferenças neurobiológicas e de processamento sensorial.
A seguir, explico alguns fatores que contribuem para isso:
1. Hipersensibilidade sensorial (processamento sensorial atípico)
Muitos autistas têm o sistema sensorial mais sensível, o que faz com que sons, luzes, cheiros ou toques sejam percebidos com maior intensidade.
Em multidões, há uma sobrecarga de estímulos simultâneos (vozes, movimentos, ruídos), que o cérebro autista pode processar de maneira menos seletiva.
Isso gera uma saturação neurológica, desencadeando desconforto físico (como dor de cabeça) ou emocional (ansiedade, pânico).
Por exemplo, aos três anos, eu atravessei a rua sozinha e fui para casa porque não aguentava mais a festa junina da escola. Minha casa ficava em frente à escola. Minha mãe havia me deixado com a professora, mas eu fugi.
Após isso, minha mãe ficou mais atenta. Passávamos um pouco de tempo, o suficiente para eu exibir minha roupa e comer alguma coisa nas festas de escola. Eu amava exibir as minhas roupas.
Essas motivações concretas (comida, roupas) eram suficientes para me fazer suportar brevemente esses ambientes.
Autistas, muitas vezes, desenvolvem estratégias pragmáticas para acessar recompensas sensoriais ou sociais, mesmo em contextos desafiadores.
Isso explica por que, mesmo aos 3 anos, ambientes como festas escolares já eram aversivos para mim: meu sistema nervoso processava os estímulos (luzes, barulho, movimento) de forma mais intensa e caótica do que o de crianças neurotípicas.
A literatura mostra que diferenças sensoriais no autismo são marcadores precoces do neurodesenvolvimento, muitas vezes perceptíveis antes dos 2 anos de idade:
- Rogers et al. (2003) analisou crianças autistas de 12 a 24 meses e identificou reações extremas a sons, texturas ou multidões como um dos primeiros sinais.
- O DSM-5 inclui “hiper ou hiporreatividade a estímulos sensoriais” como critério diagnóstico do autismo, destacando sua natureza constitucional (não adquirida).
2. Dificuldade em filtrar estímulos irrelevantes
Neurotípicos (não autistas) possuem um “filtro sensorial” mais eficiente, que ignora automaticamente informações menos relevantes (ex.: barulho de fundo).
Já muitos autistas processam esses estímulos de forma igualitária, sem hierarquizar o que é importante. Em uma multidão, isso significa que cada conversa, passo ou som ambiente compete por atenção, causando exaustão cognitiva.
Pelo menos 56% a 70% dos jovens com TEA atendem aos critérios para hiperresponsividade sensorial (SOR), o que inclui respostas negativas graves a estímulos (por exemplo, ambientes barulhentos, roupas ásperas e toques) que não provocam tais respostas em indivíduos sem SOR.
A SOR também está associada a maior comprometimento funcional em indivíduos com transtorno do espectro autista (TEA), déficits em habilidades sociais e adaptativas e ansiedade.
3. Sobrecarga social e demanda por “mascaramento”
Mesmo autistas não tímidos podem achar socializar desgastante devido à necessidade de decifrar nuances sociais (expressões faciais, tom de voz, intenções implícitas).
Por essa razão, ambiente com multidões, aumentam consideravelmente essa demanda, exigindo esforço para:
- Manter contato visual (que pode ser aversivo).
- Interpretar múltiplas interações ao mesmo tempo.
- Suprimir comportamentos naturais (como stimming) para se adequar socialmente.
Isso leva à fadiga devido ao mascaramento social (o famoso masking), comum em autistas.
4. Teoria da mente e previsibilidade
Ambientes caóticos ou imprevisíveis (como multidões) exigem que o cérebro antecipe comportamentos alheios constantemente.
Para muitos autistas, isso é desafiador devido a diferenças na teoria da mente (habilidade de inferir estados mentais dos outros).
A imprevisibilidade gera ansiedade, já que é difícil prever como as pessoas vão agir ou se aproximar.
5. Resposta neurológica ao estresse
Estudos mostram que autistas podem ter uma ativação aumentada da amígdala (região cerebral ligada ao medo e ao estresse) em situações socialmente intensas.
Isso faz com que o corpo entre em estado de alerta (como “luta ou fuga”), mesmo que racionalmente não haja perigo real.
Barulhos altos ou aglomerações podem disparar essa resposta de forma involuntária.
Por exemplo, minha reação a lugares que, logo ao chegar, estavam parcialmente habitáveis para mim, com pouca gente, mas logo depois começaram e encher vertiginosamente, é sair apressadamente.
Porque não consigo permanecer. Isso ocorre muito em shoppings.
6. Trauma ou associações negativas
Para autistas, experiências passadas de sobrecarga sensorial ou rejeição social muitas vezes reforçam a aversão a ambientes similares, como um mecanismo de autoproteção.
Por que isso é tão comum no espectro?
Essas características estão ligadas à condição neurológica inerente ao autismo, não a uma “escolha” ou “frescura”.
A comunidade científica entende que o cérebro autista opera com conectividade e sincronização diferentes, especialmente em redes relacionadas ao sensorial, social e controle executivo.
Por isso, a experiência de mundo é mais intensa e menos “filtrada”, o que, em ambientes caóticos, pode ser literalmente doloroso.
Por exemplo, aos 11 anos eu sofri um acidente e uma multidão me cercou enquanto fiquei alguns segundos desacordada. Minha primeira reação ao acordar foi pedir: “afasta essa multidão de mim”.
A presença de tanta gente estava pior do que as dores que seu sentia no corpo.
Minha reação ao acordar do acidente (“afastem essa multidão”) refletia uma necessidade legítima de proteger meu sistema nervoso de estímulos difíceis de tolerar.
Muitos autistas relatam que a aversão a multidões não é timidez, mas uma estratégia de regulação emocional.
Logo, reconhecer isso como parte da neurodivergência — e não uma falha — pode ajudar o autista a buscar adaptações (ex.: usar headphones, evitar horários movimentados), preservando assim o seu bem-estar.




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